sexta-feira, 6 de junho de 2014

Entrevista com Lara Top

A nossa entrevistada de hoje é Lara Pertille, a Lara Top. Ela tem 26 anos, é campinera e formada em Jornalismo. Apesar de sempre ter morado em Paulínia. Mora com a mãe Josefina, mais conhecida como Kita, em quem ela sempre se inspira. Segundo ela: "Sempre usei o estudo como fonte de enriquecimento e combate ao preconceito diário. Sempre trabalhei em empregos formais, desde cedo e uso isso como fonte formação de caráter do indivíduo". A gata ficou popular entre os universitários gays da Unicamp, depois da divulgação do seu vídeo "Amapô num quenda chanã".

Jaqueline Furacão: Como surgiu a Lara Top?

Lara: Lara Top surgiu logo no começo dessa transformação minha comigo mesma. Era um momento de descoberta pessoal como social. Quando comecei a sair na noite a “moda” no momento era uma ´glamourização´. A noite GLS era algo inspirado em filmes, mulheres de cinema, enfim. Existia uma cultura enraizada por trás de todo aquele “personagem” e espetáculo.

Jaqueline Furacão: Laríssima, conta pra gente como foi essa história do vídeo. Vc esperava que ele tivesse essa repercussão que teve? Vc me disse uma vez que aquele dia, o da viagem para ver o show da Amy Winehouse, tinha sido barra pesada por causa de um bapho que aconteceu no banheiro da rodoviária. Conta pra gente sobre esse dia.

Lara: Na verdade até hoje me assusto com a popularidade daquele vídeo. Afinal ele foi produzido sem pretensão nenhuma de fama ou algo parecido assim. Ele foi feito em forma de um protesto contra uma menina que estava incomodada por eu e meus amigos estarem fumando cigarro em um lugar aberto perto dela no estádio do Morumbi. O mais curioso disso tudo é que era no show da cantora Amy. Pra quem não sabe Amy ganhou destaque com seus diversos envolvimentos com drogas licitas e ilícitas.
Na minha cabeça aquilo era um contraponto total. Uma menina (no vídeo ela aparece no fundo da tela) incomodada com a fumaça de um cigarro de um grupo sabendo que na época nem existia a lei que proíbe cigarro em lugares fechados.
E o vídeo surge disso tudo de um protesto meu, em que um amigo (Mario Clarindo) filma minha revolta e indignação e posteriormente outro amigo (Gabriel Borges) posta no youtube. Mas tudo isso em forma de brincadeira.

Preconceito:
Na volta do show da Amy, eu e meu grupo de amigos estávamos exausto por conta do show. Ficamos em pé por horas, morrendo de fome. Chegando ao metrô, perto do estádio do Morumbi (não me recordo o nome), o que eu mais queria era lavar minhas mãos pra poder comer algo o mais rápido possível. Mas foi aí que minha labuta começava. Meus amigos arrumaram um lugar para deitar e poder esperar o ônibus sair pela manhã. Eu sai sozinha em busca do primeiro banheiro para lavar, até então, minhas mãos. Inocentemente retirei o dinheiro pra pagar e poder usar o banheiro feminino normalmente, quando fui barrada por uma funcionária do metrô. A alegação era de que “pessoas como eu não poderia usar o banheiro feminino para não constranger as mulheres”. Minha revolta subui na cabeça na mesma hora. Pedi para ela chamar seu superior. O chefe chegou e usou a mesma frase que a da funcionária. Quase tive um infarto por tanto preconceito enraizado naquele ambiente. Batemos boca e fomos até um posto policial, que tem dentro no metrô, pra que os policiais decidissem seu eu poderia lavar minhas mãos no banheiro feminino ou não. Foi um tremendo absurdo, mas enfim, era minha única saída.
Isso só estava começando minha guerra por um direito meu. No posto fui hostilizada, humilhada, servi de chacota para os demais, por pessoas que até então deveriam me defender. Mas em momento nenhum pensei em recuar e desistir, aquilo era uma questão de honra pra mim. E após quase 3 horas de bate boca num triângulo: policais, metrô e eu, o metrô decidiu que eu poderia usar o banheiro feminino, mas os de uso de funcionários, assim ninguém me iria ver usando. Mesmo sabendo que isso não era certo, vi ali uma vitoria minha conquistada.
Mas lembro-me até hoje de uma frase de um dos policiais: “tá se achando a gostosa, aqui isso nunca foi permitido”. Eu simplesmente respondi: “só espero que eu não seja a primeira e a última pessoa a usar o feminino”.

Jaqueline Furacão: Por falar em banheiro, na última festa do Babado, o Babado de Verão 2014, que aconteceu na Unicamp, vc também foi vítima de um ato de transfobia. O que aconteceu?

Lara: Eu fui convidada por um grupo de amigos a ir prestigiar a festa realizada dentro da Unicamp (babado de verão). Fui como sempre, de braços aberto. Reencontrei amigos. Pessoas que nem conhecia, mas dão risada até hoje com meu vídeo, enfim. A festa estava deliciosa e civilizada até que eu decidi ir ao banheiro.
Entrei normalmente e ao sair, uma menina maldosamente exclama a frase: “Como tá lotado o banheiro aqui, acho que só quem tem vagina deveria usar o banheiro feminino”.
Aquilo me afetou de tal maneira que meu amigo que estava comigo percebeu e me puxou pelo braço para que algo de mais grave não estragasse a festa toda. Afinal, Jaque, eu fui educada desde pequena a respeitar o limite de cada um. E principalmente lutar pelos meus direitos. Imagina você, se eu vejo algo errado perto de mim: eu vou e defendo. Imagina quando é comigo. Minha luta na vida diária é contra injustiça social. Isso independente de quem seja. Acho que deve ser por isso que muitas pessoas torcem o nariz quando me veem (kkkkkkkkk). Levar desaforo pra casa, jamais.

Jaqueline Furacão: Paulínia, onde vc mora, tem um pólo cinematográfico importante. Soube que vc já trabalhou como maquiadora para a indústria do cinema. Por que vc não faz mais cinema?

Lara: Jaque, eu sempre trabalhei em empregos formais e desde muito cedo. Sempre tive uma vida confortável, mas fui criada a nunca depender de ninguém e conquistar a independência financeira. Me formei como jornalista, trabalhei e trabalho como free lance ate hoje. Mas precisava sobreviver na vida. Foi daí que investi como cabeleireira e maquiadora profissional e me joguei. Quando surgiu a oportunidade de trabalhar no cinema me joguei de cara. Era para trabalhar 9 horas diárias. Mas aquilo era tão mágico para mim que muitas vezes eu trabalhava 15 horas por dia por conta própria. Só para poder ficar perto daquela fantasia toda. Mas para quem tá começando, financeiramente não dá. Salários baixíssimos, horários complexos e nada de reconhecimentos. Eu me sacrifiquei e trabalhei em 4 filmes, o mais conhecido é o filme “De pernas pro ar”.
Depois disso, decidi seguir meu próprio caminho. Amei tudo aquilo e claro que se surgisse uma boa oportunidade faria com todo amor do mundo, afinal escovas e pincéis são minhas paixões. Não me arrependo de nada, pelo contrário. Foi através do cinema que consegui reconhecimento profissional e muitas portas se abrem até hoje para eu poder mostrar meu trabalho. Mas resumindo: eu parei com cinema por conta do financeiro mesmo. Mas to aí de braços abertos.
Nunca tive medo do emprego e sempre gostei de desafios. Já trabalhei em varias áreas, até animando palestra de sex shop já fiz muito. Encaro todo trabalho com muito respeito e dignidade.

Jaqueline Furacão: E ao longo de sua vida estudantil, houve algum momento crítico em que vc pensou em sair da escola/faculdade por causa da transfobia?

Lara: A minha vida sempre foi barrada por lutas diárias de preconceito. Eu me lembro que na escola, quando a professora saia da sala, todo mundo da sala parava para cantar músicas de duplo sentido para mim. Era humilhação mesmo. Desde xingamentos até ameaças de agressões, mas nunca apanhei.
Mas vim de uma boa educação, minha mãe é pedagoga. Aprendi desde cedo que a escola é instrumento de formação de cada indivíduo. Nunca pensei em desistir daquilo tudo. Pelo contrário, era da onde tirava mais força para ser sempre a melhor e mostrar que apesar de eles me julgarem, existia um ser humano que pensava muito mais que eles ali.
Deve ser por isso que hoje não suporto ver injustiça social com pessoas indefesas. Quando presencio isso, passa um filme na minha cabeça, e nunca consigo ficar quieta.
Já na faculdade, nunca sofri nenhum tipo de preconceito. Acho que por ter me formado em uma faculdade adventista, as pessoas sempre souberam respeitar minha individualidade. E na faculdade fui convidada a ser juramentista da turma de jornalismo. Isso sim foi uma enorme realização na minha vida. Foi a confirmação de que o respeito e o caráter independe de orientação social de cada indivíduo.
Quando se tem respeito, amor, caráter e dignidade é mais fácil combater o preconceito do outro.


Minha mensagem final é: Ame mais, lute por aquilo que você acredita. Tenha fé. Trilhe seus próprios caminhos. Seja independente. Tenha coragem e nunca abaixe sua cabeça para comentários maldosos. Mantenha a paz no coração. O amor e respeito pelo próximo. E a união de um mundo melhor. 

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